Crise política e renúncia inesperada na Geórgia

Por Gabriel Mota em 12 de março de 2021

Desde fevereiro, acentua-se uma crise política na Geórgia. O país caucasiano, que passou por processo eleitoral no ano passado, ainda vê problemas entre opositores e governantes dentro do Parlamento, principalmente na disputa pela posição de primeiro-ministro.

 

Há algumas semanas, Giorgi Gakharia renunciou ao cargo de primeiro-ministro em protesto contra a prisão de Nika Melia, líder da oposição pró-OTAN e pró-União Europeia. Na ocasião, Gakharia citou que Melia “provocou o povo a agir contra o parlamento” ao promover protestos questionando o pleito de 2019, mas que sua prisão causaria instabilidade e promoveria interesses externos. Essa renúncia pegou tanto opositores como governistas de surpresa; porém, Gakharia assumira o cargo em 2019 após episódio semelhante, quando Mamuka Bakhtadze renunciou. Tanto Gakharia quanto Bakhtadze fazem parte do partido Sonho Georgiano e enfrentam a acusação de promover políticas russófilas e ligadas aos interesses do Kremlin. Gakharia, porém, mostrou-se menos ligado à Rússia em seu curto governo, representando uma ala mais branda e dialogadora com o Ocidente. Para a oposição, porém, as eleições na Geórgia foram alvo de fraudes por parte do Kremlin em favor do partido de Gakharia.

 

Agora, o novo primeiro-ministro, Irakli Garibashvili, também membro do partido majoritário Sonho Georgiano, mas menos interessado na saúde política da oposição, prometeu “restaurar a ordem” e “pôr o partido [Movimento Unido Nacional, de Melia] em seu lugar”. Tal guinada contra a Europa ecoou através da declaração de embaixadores do Reino Unido e dos EUA, que alertaram para o risco de novas prisões arbitrárias de opositores dentro da Geórgia. Atualmente, é desconhecido o número certo de opositores e/ou simpatizantes do partido que foram presos oficialmente.

 

Enxerga-se, portanto, um cenário de maior instabilidade, pois o chefe de Inteligência da Rússia alertou que os EUA devem aumentar seu apoio ao partido e incitar a população contra o governo. Segundo Sergey Naryshkin, Washington estava “acostumada com o governo anterior” e com a manutenção do partido Sonho Georgiano no poder, mas agora, com a ascensão de Garibashvili, isso teria mudado.

 

Com o novo governo nos EUA, é necessário aguardar os próximos passos da política externa de Joe Biden para a região, já que Donald Trump mostrou-se menos incisivo na rivalidade com Putin. Enquanto isso, Garibashvili segue agindo contra opositores, acusando o ex-presidente Mikheil Saakashvili de perseguições enquanto este ocupara o cargo em 2011.

 

Assim, segue uma grande instabilidade na Geórgia, onde as interferências de Rússia e EUA podem crescer com a rivalidade exposta entre partidos aliados a seus interesses no país, o qual ainda conta com movimentos autonomistas na Ossétia do Sul e na Abecásia.

 

REFERÊNCIAS:

 

AGENDA. PM Garibashvili: ex-President Saakashvili is behind ‘dirty provocation’ of audio tapes. Disponível em:<< https://agenda.ge/en/news/2021/661>>. Acessado em 12 de março de 2021.

 

AGENDA. US embassy says content of wiretapped tape featuring Georgian PM should also be investigated. Disponível em: <<https://agenda.ge/en/news/2021/663>>. Acessado em 12 de março de 2021.

 

EURASIANET. Georgian authorities arrest opposition leader. Disponível em: << https://eurasianet.org/georgian-authorities-arrest-opposition-leader>>. Acessado em 12 de março de 2021.

 

RT. Georgian PM resigns in support of opposition leader barricaded inside party HQ amid dramatic police raid following court ruling. Disponível em:<< https://www.rt.com/russia/515936-georgia-pm-resign-opposition-detention/>>. Acessado em 12 de março de 2021.

 

RT. US prepared to back Georgia opposition as Tbilisi government no longer dancing to Washington’s tune, says Russia's top spy chief. Disponível em:<< https://www.rt.com/russia/517735-spy-chief-us-georgia-opposition/>>. Acessado em 12 de março de 2021.