Eleições legislativas russas repercutem na Ucrânia.

Por Alexander Santos Kubiak em 17 de setembro de 2021.

Ao longo dos dias 17, 18 e 19 de setembro ocorreram as eleições legislativas russas, que decidiram quem vai ocupar os assentos da Duma Federal (órgão legislativo russo equivalente à Câmara de Deputados no Brasil). A previsão das eleições é de que o partido governista Rússia Unida, que já controla a maioria dos assentos da Duma (possuindo 336 das 450 cadeiras), tenha obtido uma nova vitória. Entretanto, a oposição e governos ocidentais questionam a legitimidade do processo eleitoral e dos seus resultados.

As eleições russas repercutiram na sua vizinha Ucrânia, com quem a Rússia vem sustentando uma tensa e complicada relação nos últimos anos, devido tanto à ocupação russa da região da Crimeia quanto ao início da guerra civil em Donbass. A animosidade entre Moscou e Kiev aumentou devido ao gasoduto Nord Stream 2, que irá levar gás natural russo direto para a Alemanha (não passando pela Ucrânia), o que deve gerar uma perda econômica considerável a este país.

Adicionando mais tensão à já problemática situação entre os países vizinhos, Moscou tem feito esforços para que os portadores de passaportes russos que vivem em Donbass e na Crimeia votem nas eleições legislativas. Há relatos de residentes dessas regiões que aparentemente foram levados em ônibus e trens para irem votar na Rússia.

O partido Rússia Unida, que serve de base governista ao presidente russo Vladimir Putin, fez campanha nos territórios do leste da Ucrânia que são controlados por separatistas pró-Moscou. Estima-se que mais de 600 mil pessoas nessa região possuam passaporte russo e tenham podido votar. De acordo com Kiev, a atitude russa é uma violação das leis internacionais e faz parte do processo de russificação da região, enquanto Moscou defende que não há nada de incomum em pessoas com dupla nacionalidade votarem.

Embora o eleitorado de Donbass seja pequeno em relação ao total russo, é provável que a maioria desses eleitores tenha votado no Rússia Unida, podendo garantir à agremiação alguns assentos a mais, o que explicaria a mobilização do governo para que essas pessoas participassem. Além disso, a campanha do partido serviria para legitimar a administração dos separatistas dessas regiões.

A participação de moradores da Ucrânia na eleição é apenas mais um ponto controverso de um processo já cercado de críticas de opositores. Estes afirmam que os candidatos que fazem uma verdadeira oposição ao governo não conseguem participar das eleições (por alegadamente sofrerem ameaças, intimidações ou prisões a mando do governo), além de denunciarem a ocorrência de fraudes que permitiriam que eleitores votassem mais de uma vez, com os maiores partidos de oposição apenas servindo para criar uma ilusão de pluralidade política na Duma.

Por fim, finalizando a lista de polêmicas, nestas eleições será inaugurado um sistema de voto eletrônico, que é defendido por Moscou por agilizar a contagem dos votos, mas que críticos acusam de possuir pouca transparência, podendo, teoricamente, ser manipulado pelo governo para mudar os resultados.

 

 

 

REFERÊNCIAS:

 

 

ERMOCHENKO, Alexander. Ukraine seethes as Putin's party courts voters in separatist-held Donbass. Reuters. 15/09/2021, 10:38. Disponível em: <https://www.reuters.com/world/europe/ukraine-seethes-putins-party-courts-voters-separatist-held-donbass-2021-09-15/>. Acesso em: 16 de setembro de 2021.

EURONEWS. Ukraine says Russia is violating international law by holding elections in Crimea. 16/09/2021. Disponível: <https://www.euronews.com/2021/09/16/ukraine-says-russia-is-violating-international-law-by-holding-elections-in-crimea>. Acesso em: 16 de setembro de 2021.

MIROVALEV, Mansur. What you should know about Russia’s parliamentary elections. Al Jazeera. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2021/9/16/russian-parliament-election-expected-to-deliver-more-of-the-same>. Acesso em: 16 de setembro de 2021.