Merkel e Putin realizam conferência de imprensa em última visita da chanceler alemã à Rússia.

Por Bruna Mandu em 22 de agosto de 2021.

No dia 20 de agosto, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, realizou uma conferência de imprensa junto ao presidente russo, Vladimir Putin, em sua provável última visita ao país como mandatária alemã. Espera-se que Merkel se retire da chancelaria após as eleições parlamentares alemãs que ocorrerão em setembro.

Observando os tópicos de principal destaque no âmbito da política internacional, a reunião dos líderes tratou principalmente da questão do dissidente político Alexei Navalny, além da situação no Afeganistão e na Ucrânia.

Merkel iniciou seu pronunciamento destacando o quão importante é saber que, embora falem sob perspectivas distintas, o diálogo entre Alemanha e Rússia é construtivo. Putin evidenciou o quão importante é o legado de Merkel, não apenas para seu país, mas como um exemplo de liderança mundial com grande autoridade, pois ocupar o cargo de chefia do governo alemão por 16 anos inspira respeito. Neste sentido, evidenciaram o quão importantes são as parcerias econômicas firmadas entre os dois Estados, ao que Putin complementou afirmando que o diálogo com a Alemanha é um dos principais para seu país, o que se reflete nos crescentes investimentos entre ambos.

Para além de elogios e demonstrações de cooperação entre os estados, a fala de Merkel versou sobre a prisão de Alexei Navalny, crítico do governo Putin e destaque internacional desde o ano passado devido ao caso de suposto envenenamento perpetrado pelo governo russo.

De acordo com a chanceler alemã, a condenação de Navalny é considerada uma medida desproporcional por parte do Kremlin; portanto, exigiu um posicionamento do presidente e, acima de tudo, a libertação do prisioneiro. Putin pediu que as decisões judiciais russas fossem tratadas com respeito, e Merkel completou com a afirmação de que a Alemanha seguiria monitorando o caso.

Em relação ao Afeganistão, as duas lideranças apresentaram visões divergentes. Para Merkel, a prioridade está em oferecer abrigo principalmente às forças da OTAN presentes no país durante os 20 anos de missão da organização, mas também em estender o refúgio, na Alemanha, a cidadãos afegãos.

Por outro lado, Putin ressaltou que a realidade de que o Talibã agora ocupa quase todo o território afegão deve ser o ponto de partida para se encontrar meios de evitar o colapso do estado centro-asiático. O líder russo ressaltou a importância de se acabar com políticas de imposição de valores externos a outros países sob o pretexto da criação de democracias aos moldes de outras nações, evidenciando que, ao longo da história, não houve casos bem-sucedidos desta natureza, mas sim a degradação política e social das nações onde tais medidas foram aplicadas. Putin demonstrou estar interessado em abrir canais de diálogo com o Talibã, reafirmando ser contraproducente a imposição de formas incomuns de governo naquele país.

Já Merkel solicitou a Putin que informe o Talibã sobre o interesse alemão de trabalhar com o grupo para questões humanitárias caso haja a permissão para a evacuação segura de afegãos aliados do ocidente. Putin destacou que, no momento, a comunidade internacional, especialmente o Conselho de Segurança da ONU, deve se atentar aos próximos desdobramentos, bem como destacou que se deve evitar o avanço do grupo terrorista para os países vizinhos do Afeganistão, inclusive disfarçados de refugiados.

Por fim, o último tópico tratado foi a Ucrânia, em relação à qual Putin solicitou a Merkel a intermediação para uma solução pacífica, referindo-se ao conflito na região de Donbass, no leste do país. Putin enfatizou a ausência de alternativas ao acordo de paz de Minsk. Merkel acrescentou a esperança de que, a partir de sua conversa com o mandatário ucraniano, Volodymyr Zelensky, no dia 22 de agosto, algum progresso ocorra na situação ucraniana.

Além da questão do conflito armado na região de Donbass, a Ucrânia tem se oposto veementemente à construção do gasoduto Nord Stream 2, ligando a Rússia à Alemanha, pois teme que suas operações venham a afetar sua condição de país de trânsito de gás. Putin ressaltou que está disposto a continuar enviando gás via Ucrânia, mesmo após o fim do atual acordo, previsto para 2024, mas disse que isso depende primeiro da avaliação da escala de demanda por seu combustível fóssil.

Com a as eleições parlamentares se aproximando, espera-se que Angela Merkel deixe o cargo de chanceler da Alemanha. Portanto, sua reunião com Putin no último dia 20 pode ser considerada sua última visita à Rússia como chefe de governo. O presidente russo endossou em seu pronunciamento a boa relação mantida com Merkel por meio do contato regular e da comunicação estreita, o que possibilitou a discussão de questões bilaterais urgentes, assim como o esforço para coordenar posicionamentos diante dos desafios da política global.
 

REFERÊNCIAS:

AFP. Merkel asks Russia to pressure Taliban on evacuations. [in] Deutsche Welle, 20 ago. Disponível em: <https://www.dw.com/en/merkel-asks-russia-to-pressure-taliban-on-evacuations/a-58915545> Acesso em 22 ago. 2021;

KREMLIN, News conference following Russian-German talks: Vladimir Putin and Federal Chancellor of Germany Angela Merkel gave a joint news conference following Russian-German talks. Moscou, Rússia: 20 ago. Disponível em: <http://en.kremlin.ru/events/president/news/66418>. Acesso em 21 ago. 2021;

SOLDATKIN, V. Merkel, Putin clash over Navalny on her last trip to Russia. [in] Reuters: 20 ago. Disponível em<https://www.reuters.com/world/europe/merkel-hold-talks-with-putin-first-anniversary-navalny-poisoning-2021-08-20/> Acesso em 21 ago. 2021.