Crise de refugiados atinge fronteira entre União Europeia e Belarus.

Por Alexander Santos Kubiak em 02 de setembro de 2021.

A tensão aumentou ao longo do mês de agosto na fronteira de Belarus com países da União Europeia (Polônia, Lituânia e Letônia). Um aumento no fluxo de imigrantes, principalmente oriundos de Iraque, Síria e Afeganistão, que entraram em Belarus e de lá partiram em direção aos países da UE gerou um novo conflito entre o bloco europeu e seu vizinho do leste, cujas relações já se encontravam deterioradas desde a reeleição polêmica, em 2020, de Alexander Lukashenko à presidência do país, processo marcado por acusações de fraude e cujo resultado foi contestado pela oposição (e por países da União Europeia).

Por causa do crescimento no fluxo de imigrantes, a Letônia declarou estado de emergência na fronteira com Belarus, praticamente fechando-a e reforçando a vigilância (que é função da Guarda de Fronteira do Estado) com membros da polícia e das forças armadas, além de autorizar as forças de segurança a utilizar a força para impedir a entrada de imigrantes. O governo da Polônia também pretende declarar um estado de emergência por 30 dias na sua fronteira; a população deverá passar a carregar documentos de identidade e manifestações serão proibidas.

Além da decretação de estado de emergência, os países começaram a “fortificar” a fronteira com a construção de cercas e uso de arame farpado, além de placas em árabe avisando que os imigrantes ilegais seriam deportados. Também a Frontex (organismo da União Europeia que presta assistência na guarda das fronteiras) enviou equipamentos e pessoal para patrulhar a fronteira da Lituânia. Apesar disto, diariamente, centenas de imigrantes continuam sendo encontrados pelas forças de segurança na travessia da fronteira bielorrussa.

A situação dos imigrantes é preocupante, já que, após atravessarem a fronteira, o governo de Belarus não os “aceita de volta”. Assim, há casos de dezenas de imigrantes que se encontram presos em terras de ninguém, cercados por forças bielorrussas de um lado e por forças dos países do bloco europeu do outro, não lhes sendo permitido buscar refúgio em nenhuma das duas jurisdições.

Já as autoridades de Belarus defendem que não conseguem vigiar e controlar o fluxo de imigrantes que cruzam as florestas, além de acusarem os vizinhos de utilizarem violência contra os imigrantes que chegam à União Europeia e pedem refúgio. De acordo com Belarus, os imigrantes chegam ao país utilizando passaporte de turistas, não tendo o governo capacidade de prever que eles irão em direção ao bloco europeu. Entretanto, as declarações de Lukashenko indicam suas reais intenções, já que, de acordo com ele: “[n]ão vamos reter ninguém. Afinal, não somos o destino final deles. Eles estão se dirigindo para uma Europa iluminada, calorosa e acolhedora”.

Autoridades da União Europeia acusam Alexander Lukashenko de fazer uma “guerra híbrida” ao facilitar e incentivar imigrantes a entrarem nos países vizinhos em retaliação às sanções econômicas que Belarus sofreu por parte dos países do bloco europeu, além de a Polônia ter dado asilo a Krystsina Tsimanouskaya, atleta olímpica bielorrussa que se tornou pivô de um episódio polêmico nas Olimpíadas de Tóquio – após criticar o governo de seu país na internet, dirigentes do comitê olímpico bielorrusso tentaram levar a atleta contra sua vontade para o aeroporto, mas ela se recusou e conseguiu asilo na embaixada da Polônia, onde recebeu um visto humanitário.

Buscando frear o fluxo de refugiados, autoridades europeias pressionaram o governo do Iraque a suspender os voos do país que fossem para Belarus. A principal rota dos imigrantes iraquianos rumo a Belarus é através de aviões com destino a Minsk, de onde vão de táxi ou utilizam algum outro transporte terrestre até as densas florestas localizadas na fronteira com a União Europeia. Entretanto, mesmo com a suspensão de voos iraquianos, Belarus continua recebendo imigrantes de outros países em crise, como o Afeganistão.

Enquanto não parece existir resolução do problema em breve (de um lado, Lukashenko tem opções de sobra de países em crise para atrair imigrantes desesperados, enquanto, de outro, a União Europeia não pretende retirar as sanções ao vizinho), milhares de pessoas, incluindo crianças, em busca de uma vida mais segura, se encontram no meio de um conflito de interesses e são utilizadas como instrumento de provocação entre líderes políticos.

 

 

 

REFERÊNCIAS:

 

 

AL JAZEERA. Belarus border: Poland seeks emergency order amid asylum seeker surge. 31 de agosto de 2021. Disponível: <https://www.aljazeera.com/news/2021/8/31/belarus-border-poland-seeks-emergency-order-amid-migrant-surge>. Acesso em: 1° de setembro de 2021.

EURONEWS. Poland wants state of emergency declared over Belarus border migrants. 31/08/2020, 19:12. Disponível em: <https://www.euronews.com/2021/08/31/poland-wants-state-of-emergency-declared-over-belarus-border-migrants>. Acesso em: 1° de setembro de 2021.

MONITOR DO ORIENTE MÉDIO. União Europeia apoia suspensão dos voos Iraque-Belarus. 11 de agosto de 2021, 10:59. Disponível em: <https://www.monitordooriente.com/20210811-uniao-europeia-apoia-suspensao-dos-voos-iraque-belarus/>. Acesso em: 1° de setembro de 2021.

PINTO, Ana Estela de Sousa. Para rebater sanções, Belarus usa imigrantes como arma contra a União Europeia. Folha de São Paulo. 4 de agosto de 2021, 15:43. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/08/para-rebater-sancoes-belarus-usa-imigrantes-como-arma-contra-a-uniao-europeia.shtml>. Acesso em: 1° de setembro de 2021.

WALSH, Nick Paton. Belarus libera fronteira para imigrantes e amplia crise com países da UE. CNN Brasil. 13/08/2021, 10:44. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/belarus-inunda-ue-com-imigrantes-e-amplia-crise-entre-paises-vizinhos/>. Acesso em: 2 de setembro de 2021.