Ucrânia acusa Rússia de mobilizar tropas na fronteira

Por Alexander Santos Kubiak em 02 de abril de 2021

O mês de abril se iniciou com apreensões acerca de novos conflitos na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia. No dia 1º de abril, o governo ucraniano demonstrou preocupação após 4.000 militares russos terem sido mobilizados em direção à fronteira entre os dois países, região de conflito desde que a Rússia anexou a Crimeia em 2014.

 

A preocupação do governo ucraniano é especialmente com Donbass, região em que ocorre, há anos, confrontos entre forças ucranianas e grupos separatistas pró-Rússia. Embora o presidente russo, Vladimir Putin, oficialmente negue intervir neste conflito, Moscou é acusada de fornecer armas e até treinamento militar para as forças separatistas.

 

Atualmente, existe um acordo de cessar-fogo em Donbass, negociado pela Ucrânia e pela Rússia, em conjunto com Alemanha e França. Entretanto, ao longo do ano, inúmeras violações do acordo foram denunciadas pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

 

Desde o início do ano, 20 soldados ucranianos já foram mortos e 57 feridos, tendo quatro das mortes ocorrido no dia 26 de março. O resultado é que as condições humanitárias da população civil no leste da Ucrânia está se deteriorando. Os governos de ambos os países acusam um ao outro de incentivarem suas próprias tropas a desrespeitarem o cessar-fogo.

 

O governo russo afirmou que suas tropas foram mobilizadas para um treinamento e que elas poderiam se deslocar livremente dentro do território russo, não devendo haver motivo de preocupação para a Ucrânia ou para qualquer outro país. Além disso, as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) teriam sido as primeiras a aumentar suas atividades militares próximo à fronteira russa. Logo, a mobilização das tropas russas teria como fim garantir a própria segurança do país.

 

Já os Estados Unidos apontam que a Rússia está tentando intimidar a Ucrânia e lembrou que o país é seu aliado, advertindo Moscou contra qualquer ato agressivo. A resposta do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi de que o país tomaria todas as medidas necessárias caso ocorresse uma interferência do ocidente na Ucrânia.

 

Já Serguei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, afirmou que qualquer tentativa de iniciar uma nova guerra em Donbass poderia destruir a Ucrânia. A preocupação do governo ucraniano é que Vladimir Putin possa planejar utilizar as tropas russas para invadir e anexar Donbass, de forma semelhante ao que ocorreu com a Crimeia em 2014.

 

É possível, porém, que a real motivação desta movimentação das tropas russas não seja especificamente ameaçar a Ucrânia, mas sim mostrar uma resposta aos Estados Unidos. Desde a posse do presidente Joe Biden, as relações entre Estados Unidos e Rússia se tornaram mais complicadas. O conflito diplomático alcançou um novo patamar em março, quando Biden, em uma entrevista à rede americana ABC, chamou Putin de assassino, afirmou que, quando se encontraram pessoalmente, Biden não viu “alma nos olhos” do mandatário russo, e que a Rússia iria pagar um preço por sua interferência nas eleições norte-americanas.

 

Um dos principais motivos de tensão entre os dois deve-se a acusações de interferência da Rússia nas eleições de 2016 nos EUA, a qual teve como vitorioso Donald Trump sobre Hillary Clinton (do Partido Democrata de Biden). A tensão aumentou com a publicação de um relatório da inteligência norte-americana que afirma que agentes de inteligência russos, com permissão de Putin, tentaram interferir também nas eleições de 2020, visando prejudicar a imagem de Biden e beneficiar uma reeleição de Trump.

 

Após as ofensas de Biden, o embaixador russo em Washington foi convocado por Moscou. Vale lembrar que as relações diplomáticas entre os dois países já não estavam boas em 2016, no final do governo Obama (quando Biden era vice-presidente), tendo se tornado mais amenas durante o governo Trump.

 

O posicionamento de tropas perto da Ucrânia parece ser a resposta de Putin após os ataques verbais e ameaças de Biden, servindo para demonstrar o poder político e militar que possui na região. Também pode ser a forma encontrada pelo presidente russo para afastar a atenção de seus problemas internos: as críticas pela má gestão ao enfrentamento da pandemia do coronavírus, além da prisão do opositor político Alexei Navalny, que, no ano passado, sofreu uma tentativa de assassinato ao ser envenenado (supostamente a mando de Putin, de quem ele é crítico) e que foi preso ao retornar ao país em janeiro. Os protestos dentro da Rússia pedindo a liberdade de Navalny continuam ocorrendo, juntamente com as críticas dos representantes de outros países (em especial os da Europa), que demonstraram preocupação com a prisão do opositor político.

 

Nos próximos dias, será possível ver quais os objetivos da Rússia em sua movimentação e como irão reagir a Ucrânia e os Estados Unidos. Entretanto, é certo que conflito separatista em Donbass (que, desde 2014, já matou mais de 14 mil pessoas) está ainda longe de chegar ao fim.

 

REFERÊNCIAS:

 

DEUTSCHE WELLE. Ukraine accuses Russia of 'aggravating' situation in Donbass. DW, 01/04/2021. Disponível em : <https://www.dw.com/en/ukraine-accuses-russia-of-aggravating-situation-in-donbass/a-57082586>. Acesso em: 02 de abril de 2021.

 

EURONEWS. Could Ukraine-Russia border tension escalate into a fresh conflict? 02/04/2021. Acesso em: <https://www.euronews.com/2021/04/02/could-tensions-on-ukraine-s-border-herald-more-than-just-russian-maneuvres>. Acesso em: 02 de abril de 2021.

 

FRANCE 24. Ukraine says Russia massing troops on border, US warns Moscow. AFP, 01/04/2021, 21:48. Disponível em: <https://www.france24.com/en/live-news/20210401-ukraine-says-russia-massing-troops-on-border-us-warns-moscow>. Acesso em: 02 de abril de 2021.

 

IGNATIUS, David. Opinion: How Russia’s military activity near Ukraine is poised to test the Biden administration. Washigton Post, 01/04/2021, 2:46 (GMT-3). Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/opinions/2021/04/01/how-russias-military-activity-near-ukraine-is-poised-test-biden-administration/>. Acesso em: 02 de abril de 2021.

 

LABORDE, Antonia. Biden ataca Putin e diz que o considera “um assassino”. El País, 17/03/2021, 16:25, Washigton. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/internacional/2021-03-17/biden-ataca-putin-e-diz-que-o-considera-um-assassino.html>. Acesso em: 01 de abril de 2021.